Kabelo

Publicado: 12/06/2007 em Kabelo

Cultura pop é algo por que Kabelo professa paixão com juras eternas de amor. Se não, vejamos. Começou no teatro aos 12 anos (tem 35), toca baixo e canta com energia roqueira e é apaixonado pelas raízes nordestinas da família, traduzindo-as em música. Essa é a cara do trabalho que você tem em mãos, homônimo, de 16 músicas, que recebe também as assinaturas de Leandre Gomes na guitarra e Edson X na bateria e produção – um disco lancinante, em que Kabelo coloca um pé no som negro de raiz norte-americano – soul e funk -, outro no Nordeste, declamando letras visuais como pílulas de teatro em forma de coco e embolada e as duas mãos espancando um contra-baixo, em slaps e levadas viscerais.
Você pode ouvir o trabalho dessa forma, como um mexidão. E deve realmente proceder dessa forma, pois faz todo sentido assim, como foi composto e tocado, muitas vezes ao vivo em estúdio para prezar a crueza do estilo que impõe.
Mas na hora de escrever sou obrigado a destrinchá-lo naco por naco, para que você tenha noção de como o degustei.
Vamos lá.
“Uga Bunga”, que abre o disco, é rock orgânico de guitarras pesadas e vocal primal. Em “Funkapoeira”, Kabelo apruma o berimbau e coloca o funk em uma roda de capoeira, adicionando baixo suingado e guitarra vigorosa.
O mesmo instrumento de seis cordas diminui a distorção e entra no balanço em “Sereia”, música para se ouvir balançando a cabeça.
Se tivesse uma recomendação a Kabelo, seria a de colocar “Candangolândia” como faixa de trabalho. Afinal, é a mistura de tudo a que ele se propõe. A guitarra faz a cama até que o vocal entre como uma gangsta embolada, declamando sobre “cachaça-sangue-mulher-futebol e sol”.
“Primal Hi-Tec” eleva o coco e a embolada a primeiro plano, enquanto o baixo slapeia nervoso – algo como se os red hot chilli peppers tivessem nascido no sertão que nunca virou mar.
A cacofônica “Carta para Nóia” vai do funk ao rock nervoso, volta, vai, volta e segue sem dar seta nas mudanças de pistas. E remetendo ao Chilli Peppers mais uma vez, “Lava” é uma canção que poderia muito bem estar nos primeiros discos do grupo californiano, quando esses pediam bênção a Funkadelic e Sly and the Family Stone.
Como se já não houvesse surpresas suficientes, Kabelo lança uma balada de vocal rapeado e embolado bem no meio da bolacha, “Naquê-brada”.
Preste atenção ao baixo encharcado de overdrive em “Sou da rua”. No refrão, a música vira quase um nu-metal, de afinação baixa.
“Baixo Radioativo” é onomatopéica e deixa a dúvida: o primeiro plano é da guitarra ou do groove da voz?
A guitarra que já foi forte, melodiosa, delicada, puxa um rock oitentista em “Lavagem Cerebral”, flertando com Police e Paralamas do Sucesso. Mas a direção é entregue ao slap do baixo e tudo volta à rota Kabelo.

“Óleo da Máquina” resgata a embolada, em palavras e rimas fortes e concisas, enquanto baixo, guitarra e bateria correm atrás para acompanhar.
O baixo pipoca na “versão banda” de “Uga Bunga”, e a única cover do disco, “Papagaio do Futuro”, originalmente de Alceu Valença, ganha traje de passeio com guitarra pesada, climática, densa.
“Bumbo” seria divertida, não fosse tão potente. Explico. A música nasceu de um desafio do produtor do disco, Edson X, se Kabelo conseguiria tocar baixo, bumbo, chimbau e cantar. Quer saber se conseguiu? Ouça.
“Linguicity” fecha a cortina em nova mistura tão peculiar quanto deliciosa de bossa nova e beat box que ganha moicano punk da metade pro final.
Deu para perceber, pelo texto, que se trata de uma usina de som e ritmos? Ou por outra: de um dínamo? Caso positivo, saímos todos felizes. Você mais ainda, com o disco prontinho para ouvir.

Luiz César Pimentel

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