O astro mais famoso do jazz

Publicado: 08/10/2007 em Folha de São Paulo, Jazz, Louis Armstrong

HELTON RIBEIRO
Colaboração para Folha Online

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Ele é, ao lado de Duke Ellington, o maior nome da história do jazz. Entre outros predicados, Louis Armstrong foi o artista mais popular e um dos melhores trompetistas do gênero. Inovações como o solo individual e o scat (canto sem palavras) são atribuídas a ele.

Satchmo ou Pops, como era carinhosamente chamado, nasceu em 4 de julho de 1901, em New Orleans (ele dizia ter sido em 1900, mas sua certidão de nascimento registra o ano seguinte). Ele teve uma infância muito pobre e problemática. Foi criado pela mãe e a avó, pois o pai abandonou a família.

Aos 11 anos, foi levado para um reformatório por ter disparado uma pistola. Mas o castigo trouxe sua redenção, pois no reformatório ele aprendeu a tocar corneta (que mais tarde trocaria pelo trompete). Com 19 anos, substituiu o então “rei da corneta”, King Oliver, na banda do trombonista Kid Ory. De 1922 a 24, tocou e gravou com Oliver e Fletcher Henderson, em Chicago.

De 25 a 28, já como líder, fez os clássicos registros com os Hot Five e Hot Seven, que incluíam Kid Ory, Johnny Dodds e Lil Hardin, sua mulher na época. “Potato Head Blues”, “Muskrat Ramble”, “West End Blues” e muitos outros imortais standards do jazz surgiram nesses três anos. Em 29, Satchmo mudou-se para Nova York e ganhou reconhecimento mundial tocando em grandes orquestras. Nas décadas de 40 e 50, voltou a reunir um grupo pequeno, os All Stars, para outras lendárias gravações.

À medida em que foi adotando um repertório mais comercial e dando mais destaque à voz, Armstrong passou a competir com os astros pop nas paradas, chegando a desbancar os Beatles com o LP “Hello Dolly”, de 64. Outra canção de grande apelo popular foi “What a Wonderful World”. Coroado de sucesso, ele morreu de ataque cardíaco em 6 de julho de 71, em Nova York.

  • Be-Bop-a-LulaNa gravação de “Heebie Jeebies”, um de seus primeiros sucessos, ele esqueceu a letra e começou a cantarolar. Inventou, assim, o “scat singing”, um canto em que fonemas aleatórios substituem palavras. O scat entrou para o vocabulário jazzístico e influenciou até o rock’n’roll, em canções como “Be-Bop-a-Lula” e “Tutti Frutti”.
  • Marca registradaSua voz grave e roufenha é inconfundível e influenciou gerações de músicos de variados círculos, desde Billie Holiday até o roqueiro Tom Waits. O timbre de Armstrong, tecnicamente falando, é baixo, algo não muito comum entre cantores de sucesso, que em geral são tenores ou barítonos.
  • Que bocão!O apelido Satchmo é uma abreviação de Satchelmouth (boca de saco), uma referência nada elogiosa aos sorrisos largos de Armstrong. Deve-se lembrar que aqueles eram tempos de discriminação racial.
  • A rixa com Dizzy GillespieNos primeiros anos do bebop, um de seus criadores, o trompetista Dizzy Gillespie, deu uma polêmica entrevista dizendo que o bop era o futuro do jazz, e que Louis Armstrong representava o passado. Satchmo deu o troco, ironizando Gillespie em uma música gravada para um especial de televisão. Mais tarde eles fizeram as pazes e chegaram a tocar juntos.

A vida não era nada fácil para os negros americanos no início do século 20, quando nasceu Louis Armstrong. Organizações secretas como a Klu-Klux-Klan faziam dos linchamentos um método de ação.

Negros não podiam freqüentar os mesmos lugares que os brancos, e, em alguns Estados, até o direito ao voto lhes foi subtraído. Por tudo isso, o historiador John Hope Franklin considerou que a vida dos negros do sul, no início do século 20, era pior que nos tempos da escravidão.

Durante o movimento pelos direitos civis, nos anos 50 e 60, dezenas de músicos como Quincy Jones, Ray Charles e James Brown apoiaram a causa. Essa era também a época da Guerra Fria, e a Casa Branca tirava proveito do prestígio de Armstrong patrocinando turnês propagandísticas pelo mundo, nas quais ele era apresentado como “embaixador da boa vontade” (americana).

Até que ele viu, na televisão, crianças negras sendo agredidas pela polícia. Revoltado, cancelou a turnê seguinte (para a União Soviética) e deu um “conselho” ao governo: “Vá para o inferno!”.

Sites Relacionados

  • www.satchmo.net – o site oficial, mantido pelo Queens College, tem uma seção de notícias bastante atualizada, informações sobre os museus dedicados a ele e eventos em sua homenagem, fóruns de discussão e biografia.
  • www.pbs.org – site da rede de televisão PBS reproduz a biografia feita pela Grove, uma das melhores enciclopédias de jazz. Tem músicas e comentários de Wynton Marsalis e do próprio Louis para ouvir.
  • www.michaelminn.net – o site, criado pelo músico Scott Johnson, tem a completa discografia do trompetista, incluindo todas as bandas em que tocou. São centenas de títulos, com datas e locais de gravação e músicos participantes.

A matéria acima foi publicada na Folha. Acesse aqui, leia o original e compre a coleção, é imperdível.

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