O Anjo caído

Publicado: 11/10/2007 em Chet Baker, Folha de São Paulo, Jazz

HELTON RIBEIRO
Colaboração para Folha Online

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Chet Baker foi como um anjo que desceu ao inferno. No início da carreira, encantava as mulheres pela beleza e o canto suave. Vinte anos depois, era um junkie de rosto sulcado, perseguido pela polícia. Com seu trompete romântico, foi um dos criadores do “west coast jazz”, a variante californiana do cool lançado por Miles Davis e Gerry Mulligan, e, como cantor, influenciou a bossa nova.

Chesney Henry Baker nasceu em Yale, Oklahoma, em 23 de dezembro de 1929, e se mudou com a família para a Califórnia, em 40. Na infância, começou a cantar na igreja e ganhou um trompete do pai. Aos 16 anos, alistou-se no Exército e começou a tocar em bandas militares.

Em 52, já como músico profissional, acompanhou Charlie Parker em turnê pela costa oeste. Em seguida, entrou para o seminal Gerry Mulligan Quartet, que criou o estilo “west coast”. Suas versões de ‘My Funny Valentine‘ e ‘Moonlight in Vermont‘ com Mulligan são clássicas. Dois anos depois, ele conquistou um novo público ao lançar-se como cantor, à frente do próprio quarteto.

Apesar do sucesso, sua vida ia de mal a pior, com seguidas detenções por porte de heroína. Na Itália, onde morou nos anos 60, passou mais de um ano preso. O vício deteriorou sua reputação nos Estados Unidos, embora ele ainda fosse aclamado na Europa, onde, nos anos 70 e 80, gravou alguns de seus melhores discos.

Em 13 de maio de 88, Chet teve uma morte trágica, ao cair da janela de um hotel em Amsterdã. A causa do acidente tem duas versões: suicídio ou excesso de drogas. O que dá quase no mesmo.

Contexto histórico

Dos anos 40 até, pelo menos, os 60, as drogas parecem ter sido o combustível do jazz. Charlie Parker foi a figura mais emblemática, com a carreira e a vida abreviadas pela heroína. Chet Baker teve o mesmo destino.

Viciado desde os anos 50, ele teve uma carreira errática, com períodos de inatividade devido à dependência e às prisões. Gravou discos em excesso, nem sempre de boa qualidade, devido à constante necessidade de conseguir dinheiro para comprar drogas.

Nos anos 60, além de mais de um ano preso na Itália, ele foi expulso de quatro países, até ser deportado de volta para os Estados Unidos. Em 66, foi espancado em San Francisco quando tentava comprar drogas na rua.

Teve alguns dentes quebrados, passando a usar dentadura, o que prejudicou sua embocadura (a forma de colocar os lábios no bocal do trompete).

Curiosidades

 

  • Príncipe do coolUma nova cinebiografia de Chet está sendo filmada e deve se chamar “Prince of Cool”. Josh Hartnett (“Dália Negra”, “Sin City”, “Pearl Harbor”) personifica o trompetista. Ele já foi retratado no documentário “Let’s Get Lost”, de Bruce Weber, lançado quatro meses após sua morte e indicado ao Oscar. E a ficção “Apaixonados Impetuosos (All the Fine Young Cannibals)”, de 60, foi claramente inspirada no então jovem astro. O nome do protagonista, Chad Bixby (interpretado por Robert Wagner), fazia uma dupla referência: a Chet e ao pioneiro do dixieland Bix Beiderbecke, uma de suas maiores influências. E foi desse filme que a banda pop Fine Young Cannibals tirou o nome.
  • À beira do infernoEmbora não intencionalmente, o título de um filme estrelado por Chet em 55 parecia simbolizar sua tragédia pessoal: “Horizonte do Inferno”. Ele atuou também em um filme italiano, “Urlatori alla Sbarra”, de 60.
  • Bossa novaA voz frágil e suave de Chet influenciou desde a bossa nova até Caetano Veloso. Não por acaso, ele acabou se aproximando de músicos brasileiros. Gravou com o pianista Rique Pantoja os discos “Chet Baker & The Boto Brasilian Quartet”, e “Cinema 1”. Em 85, veio ao Free Jazz Festival.
  • Sem piano e sem saxO quarteto de Gerry Mulligan com Chet Baker causou sensação por dispensar o piano, mas não resistiu à perda do sax. Formado em 52, acabou apenas 11 meses depois, quando o líder foi preso por porte de drogas.

Sites relacionados

 

  • chetbakertribute.com – site feito por um fã tem vinte samples de suas gravações, seis vídeos, biografia, discografia e uma seção curiosa, que pretende responder a “perguntas frequentes sobre Chet”: “como ele morreu?”, “é verdade que ele não sabia ler música?” etc.
  • www.jazzdisco.org – o site japonês tem uma discografia completa e detalhada, com as datas e locais das gravações e todos os músicos participantes. Inclui também os discos que ele gravou como acompanhante de outros artistas.
  • www.shout.net/~jmh/ – o site mantido por um trompetista tem biografia, discografia e, para quem é músico, transcrições de vários de seus solos.

A matéria acima foi publicada na Folha. Acesse aqui, leia o original e compre a coleção, é imperdível.

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