O contrabaixo na linha de frente

Publicado: 11/10/2007 em Charles Mingus, Contrabaixistas, Folha de São Paulo, Jazz

HELTON RIBEIRO
Colaboração para Folha Online

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Um dos maiores compositores e contrabaixistas do jazz, Charles Mingus destacou-se também como bandleader. Seu Jazz Workshop era, mais que um grupo, um laboratório de idéias no qual os músicos improvisavam com grande liberdade sobre suas inovadoras criações, antecipando o free jazz. Ele fundia blues, gospel, música clássica e a influência de Duke Ellington para criar algo novo e instigante.

Mingus nasceu em 22 de abril de 1922 em Nogales, Arizona, e cedo se mudou com a família para Los Angeles, onde aprendeu a tocar trombone e violoncelo antes de optar pelo contrabaixo. De 41 a 53, tocou com Louis Armstrong, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Duke Ellington e outros grandes.

Em 54 fundou o Jazz Workshop, pelo qual passaram Max Roach, Lee Konitz e Jackie McLean. De 56 a 64, gravou os clássicos LPs “Pithecanthropus Erectus”, “The Black Saint and the Sinner Lady” e “Charles Mingus Presents Charles Mingus”, entre outros. Os arranjos podiam incluir ruídos e espaço para improvisações coletivas de grande força expressiva.

Depois de quatro anos afastado dos palcos e estúdios, voltou em 70 com muito sucesso. Um raro tipo de esclerose que atrofia os músculos deixou-o paralítico em 77 –mesmo sem tocar, ele continuou fazendo discos, nos quais atuava apenas como coordenador musical. A doença o derrotou em 5 de janeiro de 79, em Cuernavaca, México.

Contexto histórico

Até os anos 50, o músico de jazz, em geral, tinha pouco ou nenhum controle sobre sua obra, e uma visão de negócios que não ia muito além de gerir o próprio grupo. Empresários, gravadoras e editoras musicais pareciam falar um idioma incompreensível para os artistas. Por isso, eram frequentes os casos de músicos prejudicados em contratos com gravadoras, ou ludibriados por empresários.

Charles Mingus foi um dos primeiros a tentar superar essas limitações, aprendendo a trabalhar do outro lado do “balcão”. Criou selos independentes, organizou uma associação de músicos (Jazz Artists Guild) e financiou shows.

O empreendimento mais frutífero foi o selo Debut Records, aberto em sociedade com o baterista Max Roach, em 52. Durante seis anos, a pequena gravadora lançou discos de Miles Davis, Charlie Parker, Sonny Rollins, dos próprios donos e o famoso “Jazz at Massey Hall”, considerado o melhor disco ao vivo do jazz, com um grupo formado por Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Bud Powell, Mingus e Roach.

Curiosidades

 

  • Caro Miles…Em uma longa carta aberta a Miles Davis, escrita em 55, ele fazia duras críticas ao trompetista. Citando uma declaração de Miles de que não tinha gostado de quase nada do que gravou nos dois últimos anos (período em que Mingus participou de seus discos), ele fuzila: “Fico pensando como um verdadeiro artista pode aceitar ser pago por um trabalho que você mesmo diz não ter sido bem feito”.
  • Mingus viveApós sua morte, a viúva Sue Graham criou a Mingus Dinasty, depois aumentada para Mingus Big Band, especializada em executar o repertório do contrabaixista. Em 97 a orquestra veio ao Free Jazz, com participação do roqueiro Elvis Costello, que escreveu letras para algumas músicas do jazzista.
  • Bird mataria todosMuitas composições de Mingus tinham títulos estranhos ou bem-humorados. Uma delas era “If Charlie Parker Was a Gunslinger, There’d Be a Whole Lot of Dead Copycats.” (“Se Charlie Parker Fosse um Pistoleiro, Haveria um Punhado de Imitadores Mortos”). O título depois foi abreviado para “Gunslinging Bird” (“Pássaro Atirador”). Bird era o apelido de Parker.

Sites relacionados

 

  • www.mingusmingusmingus.com – o site oficial tem 44 samples de áudio, e trechos de filmes e comerciais de televisão utilizando músicas dele. Há sete textos do (ou com o) próprio Mingus sobre temas como “O que é um compositor de jazz” e uma carta aberta a Miles Davis, fazendo veladas críticas ao trompetista. A biografia é bem extensa e a discografia, bem detalhada, inclui até gravações piratas (bootlegs).
  • www.vervemusicgroup.como site da gravadora Verve tem extensas resenhas de seus discos lançados pelo selo Impulse, entre eles as obras-primas “The Black Saint and the Sinner Lady” e “Mingus Mingus Mingus Mingus Mingus”. Há também samples de músicas para ouvir.
  • www.jazzdisco.org – o site japonês tem um completa discografia, com as datas e locais das gravações e todos os músicos participantes. Inclui também os discos que ele gravou como acompanhante de outros artistas.

A matéria acima foi publicada na Folha. Acesse aqui, leia o original e compre a coleção, é imperdível.
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