O jazz como expressão da alma

Publicado: 11/10/2007 em Folha de São Paulo, Jazz, John Coltrane

HELTON RIBEIRO
Colaboração para Folha Online

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Ele foi o mais importante saxofonista surgido depois de Charlie Parker, desenvolvendo um novo modo de tocar que ampliou os horizontes do jazz. John Coltrane evoluiu do hard bop para o jazz modal e o free, incorporando estruturas da música indiana e imbuindo suas interpretações de forte carga emocional e mística. Suas “sheets of sounds” (sequências de notas tão rápidas e longas que davam a impressão “folhas” ou camadas de som) tornaram-se um desafio para os saxofonistas.

John William Coltrane nasceu em Hamlet, Carolina do Norte, em 23 de setembro de 1926. Tocou em grupos de rhythm & blues e depois com Dizzy Gillespie e Johnny Hodges. Atingiu a maturidade musical no lendário quinteto de Miles Davis nos anos 50, no qual permaneceu de 55 a 60, tendo participado do disco “Kind of Blue”, marco do jazz modal. Nesse período também fez uma histórica colaboração com Thelonious Monk e lançou, em 59, “Giant Steps”, sua primeira grande obra como líder, na qual já esboçava as “sheets of sounds”.

Ao deixar Miles, formou o clássico quarteto que incluía McCoy Tyner (piano) e Elvin Jones (bateria). Ainda em 60, lançou “My Favorite Things”, outra obra-prima. Suas experimentações atingiram a plenitude em “A Love Supreme”, de 64, onde ele mergulhou na música indiana e no espiritualismo. “Ascension”, de 65, marca sua adesão ao free jazz. Ele estava no auge da carreira quando, em 17 de julho de 67, morreu de infecção hepática em Huntington, Nova York.

Contexto histórico

Nos anos 30, o jazz era a melhor diversão, música para dançar. O bebop o intelectualizou, almejando convertê-lo em forma de arte. Coltrane levou-o a um novo patamar, adotando uma atitude espiritualista perante a música.

Ele “escreveu” seu próprio livro sagrado, o LP “A Love Supreme”, de 64, que dedicou a Deus. Os quatro temas do disco sucedem-se como uma oração sem palavras (com exceção da frase mântrica que dá nome a ele), capaz de comover o jazzófilo mais ateu.

Apesar de manifestar interesse pela cultura hindu, ele parecia não se vincular a uma religião específica. Sua crença era de que todas as pessoas deveriam se esforçar em prol de um mundo melhor, e que a música poderia ser um veículo para transmitir pensamentos positivos.

A “pregação” de Coltrane foi bem sucedida. Seus mais fiéis seguidores, o saxofonista Pharoah Sanders e a viúva Alice Coltrane, também adotaram uma postura devocional e positiva diante da música e da vida.

Curiosidades

 

  • Demorado

    Os longos solos de Coltrane, que podiam durar 20 minutos ou mais, tornaram-se lendários e geraram muita polêmica. O importante crítico Ira Gitler disse, na época, que os 16 minutos de “Chasin’ the Trane”, registrados em 61 no álbum “Live at the Village Vanguard” pareciam “a espera da passagem de um trem de carga de cem vagões”. Quando ele tocava no grupo de Miles Davis, o patrão exigiu que fizesse solos mais curtos, e Coltrane alegou que não conseguia, pois eles seguiam um encadeamento lógico. “É só tirar a p… do sax da boca!”, respondeu o irascível Miles.

  • Jazz militar

    Coltrane serviu na marinha entre 45 e 46, em uma base no Havaí. Sua primeira gravação foi feita com uma banda militar, em julho de 46.

  • Família musical

    Em seus dois últimos anos de vida, Coltrane foi casado com a pianista e harpista Alice Coltrane, que morreu em janeiro de 2007, deixando também uma obra de grande qualidade. Um dos filhos do casal, Ravi, é hoje um renomado saxofonista e já esteve algumas vezes no Brasil.

  • Homenagens

    Entre as muitas homenagens feitas a ele estão a do serviço postal americano, que estampou seu rosto em um selo, e a da companhia cinematográfica Universal, que deu o nome do saxofonista a uma rua de seus estúdios.

Sites relacionados

 

  • www.johncoltrane.com – o site oficial, mantido pela enteada do saxofonista, Michelle Coltrane-Carbonell, tem vídeos (inclusive dele com Miles Davis), biografia, discografia, galeria de fotos e informações sobre a Fundação John Coltrane e as bolsas de estudo oferecidas por ela.
  • www.midomi.com – o site (americano, apesar do nome) tem trechos de quase 500 músicas para ouvir e resenhas de todos seus discos.
  • www.nathanielturner.com – o site sobre cultura negra americana tem como maior atrativo as resenhas críticas de alguns dos discos de Coltrane, como “Expression” e “The Complete Africa/Brass Sessions”. A biografia também é muito boa.

A matéria acima foi publicada na Folha. Acesse aqui, leia o original e compre a coleção, é imperdível.

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