O libertador do jazz

Publicado: 11/10/2007 em Folha de São Paulo, Free, Fusion, Ornette Coleman

HELTON RIBEIRO
Colaboração para Folha Online

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O free foi a revolução mais radical ocorrida até hoje no jazz. Cinqüenta anos depois, ainda há críticos que confessam não conseguir gostar desse estilo, e grande parte dos jazzófilos acha que tudo que ele produziu não passa de barulho e confusão. A “culpa” é de Ornette Coleman, o saxofonista que libertou o jazz de sua estrutura convencional.

Ele nasceu em 9 de março de 1930 em Fort Worth, Texas, e começou a tocar sax alto aos 14 anos. Na década de 50, formou em Los Angeles um grupo com o trompetista Don Cherry e o baterista Billy Higgins.

Em 59, os três foram para Nova York, onde formaram um clássico quarteto com Charlie Haden no contrabaixo. O grupo lançou no mesmo ano “The Shape of Jazz to Come”, com sua obra-prima “Lonely Woman”. No ano seguinte, foi agregado o quarteto de Eric Dolphy (com Freddie Hubbard, Scott LaFaro e Ed Blackwell) para a gravação do manifesto do movimento, “Free Jazz”. Nele, os dois quartetos tocavam simultaneamente. Os músicos improvisavam não com base na estrutura harmônica dos temas, mas de forma livre, e todos ao mesmo tempo.

Em 69, ele formou outro grupo com Haden, Blackwell, o saxofonista tenor Dewey Redman e seu filho Denardo Coleman. Durante alguns anos, pesquisou e gravou música indiana, africana e árabe. Em 75, formou a banda elétrica Prime Time, com duas guitarras, dois baixos e duas baterias. Começou a chamar atenção do público roqueiro, o que se consolidou com o LP “Song X”, gravado com Pat Metheny em 85.

Nos anos 80 e 90, ele escreveu, tocou e gravou peças sinfônicas. Nos últimos anos, vem produzindo menos. O CD mais recente, “Sound Grammar”, de 2006, traz um quarteto de formação atípica: sax, percussão e dois contrabaixos.

Contexto histórico

A maneira de se tocar jazz, por mais de 50 anos, obedeceu a normas que sucessivas vertentes como o swing, o bebop e o cool não questionaram. A música transcorria de maneira lógica, com a exposição do tema (melodia) pelo grupo; a improvisação (solos) com base nos acordes da melodia, e o retorno ao tema. Todas as inovações se deram dentro desses parâmetros.

O free jazz, capitaneado por Ornette Coleman (e que teve outros nomes de destaque como John Coltrane, Cecil Taylor, Eric Dolphy, Art Ensemble of Chicago e vários seguidores de Coltrane), veio romper com essas amarras. Os músicos passaram a improvisar livremente, sem necessariamente se ater à melodia. Mais ainda, cada um podia seguir suas próprias idéias, dialogando com os colegas, em vez de obedecer a uma estrutura pré-determinada.

Assim, foi quebrada a hierarquia segundo a qual instrumentos como contrabaixo e bateria deveriam manter o ritmo enquanto sax e trompete, por exemplo, faziam os solos. A improvisação coletiva chegou ao ápice nos “duplos quartetos” que tocavam ao mesmo tempo, cada um de forma diferente.

Curiosidades

 

  • Toy jazzNo seu quarteto clássico dos anos 50, Coleman usava um sax de plástico e Don Cherry, um trompete de bolso. A maioria dos colegas não os levava a sério, achando que eles eram apenas farsantes usando instrumentos de brinquedo.
  • Polivalente Coleman fez gravações tocando também violino (em “Song X”, de 85), trompete (“Science Fiction”, de 71) e sax tenor (“Onette on Tenor”, de 62).
  • Para ouvir numa ilha desertaUm fã insuspeito de Coleman é Wynton Marsalis, notório tradicionalista. Ele disse em uma entrevista que o revolucionário [ou inovador] “Shape of Jazz to Come” é um dos poucos discos que levaria para uma ilha deserta.
  • HarmolódicaEle cunhou o termo “harmolódica” (ao pé da letra, algo como “harmonia melódica”) para definir sua música. Trocando em miúdos, é a improvisação coletiva, onde todos os músicos — inclusive da seção rítmica — têm o mesmo destaque, por se tornarem também solistas em tempo integral.

Sites relacionados

  • www.ornettecoleman.com – o site oficial tem vídeos, áudio de uma entrevista, discografia com as fichas técnicas, agenda de shows e uma lista de livros e DVDs sobre ele.
  • www.geocities.com/BourbonStreet/Quarter/7055/ – o site alemão Robert’s Jazz Corner tem como principal atrativo uma seção com artigos e entrevistas em jornais e revistas como Down Beat e USA Today. Há também biografia e discografia. A seção de críticas de CDs é toda em alemão, sem tradução para o inglês.
  • www.ejn.it – o site da Europe Jazz Network tem uma boa biografia, e também as de músicos que tocaram com ele, como Don Cherry e Dewey Redman. O site exige inscrição, mas o internauta pode evitar a burocracia indo direto a http://www.ejn.it/mus/coleman.htm.
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A matéria acima foi publicada na Folha. Acesse aqui, leia o original e compre a coleção, é imperdível.

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