Um militante da revolução permanente

Publicado: 11/10/2007 em Folha de São Paulo, Jazz, Miles Davis

HELTON RIBEIRO
Colaboração para Folha Online

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Miles foi um dos maiores e mais polêmicos gênios do jazz. Do bebop ao hip hop, passando pelo rock e o funk, ele ousou de tudo. Suas atitudes pessoais eram igualmente provocativas: ostentava riqueza, desafiava o público e se indispunha com a polícia.

Miles Dewey Davis Jr. nasceu no dia 25 (ou 26, os pesquisadores divergem) de maio de 1926 em Alton, Illinois. Começou a tocar trompete aos 13 anos. Com 19, em Nova York, participou da revolução do bebop no grupo de Charlie Parker. Tirando partido de seu estilo mais lírico, que contrastava com a velocidade do bop, produziu a primeira ruptura em 50, com o LP “Birth of the Cool”, considerado o marco inicial do cool jazz.

Depois de uma histórica sessão com Thelonious Monk em 54, ele formou com John Coltrane, em 55, um quinteto que foi comparado em importância ao Hot Five de Louis Armstrong. Em 59 veio “Kind of Blue”, com outra guinada: o jazz modal, que baseava os improvisos em escalas, em vez de acordes. No mesmo ano, Miles foi espancado por um policial e acusado de tê-lo agredido, sendo absolvido em julgamento.

Em “Sketches of Spain”, de 60, ele enveredou pela música espanhola. O eletrificado “Bitches Brew”, de 69, foi a pedra fundamental do jazz fusion. A partir daí, Miles tornou-se um astro pop, afastando-se do jazz ortodoxo.

Após um acidente automobilístico que esmagou suas pernas em 72, e corroído pela heroína, ele se retirou de cena até 81. Voltou explorando ritmos mais modernos: funk, dance music, eletrônica e hip hop. Em 28 de setembro de 91 ele morreu em Santa Monica, Califórnia, de ataque cardíaco provocado por pneumonia e problemas respiratórios.

Contexto histórico

Colaboração para Folha Online

Desde o bebop, os jazzistas vinham assumindo uma postura desafiadora, almejando ser vistos como artistas, não meros ‘entertainers‘. Miles levou isso ao paroxismo: às vezes tocava de costas para o público, ou saía do palco enquanto solava. Com isso, ele procurava sublinhar sua arte, deixando de lado tudo que não fizesse parte dela, mesmo que fosse a comunicação com o público. A persona risonha e brincalhona de um Louis Armstrong, por exemplo, não era para ele.

Esse bop com mais “alma”, menos cerebral, foi rotulado de hard bop ou pós-bop. A música de Silver receberia adjetivos como “soul” e “funky”, sendo considerado um precursor de ambos os gêneros musicais.

Miles também rompia com a imagem de que o músico de jazz devia ser um pobretão incompreendido. Ele queria ser (e foi) rico e popular. O único arquétipo do qual não conseguiu se livrar foi o do jazzista viciado em drogas.

Essa atitude altiva (ou arrogante, dependendo do ponto de vista) era expressa igualmente em suas opiniões ferinas. Ele envolvia-se em polêmicas com outros artistas e a indústria fonográfica. Sobre o prêmio Grammy, por exemplo, disse que privilegiava músicos brancos que tinham copiado os negros.

Curiosidades

 

  • No cinemaO ator Don Cheadle, indicado ao Oscar por “Hotel Ruanda”, anunciou no final de 2006 um projeto para dirigir e atuar em uma cinebiografia intitulada simplesmente “Miles Davis”. Em setembro de 2007, não havia previsão de quando estará em um cinema perto de você.
  • Bate-bocaUm dos bate-bocas mais notórios entre astros do jazz envolveu Miles e Wynton Marsalis. Notório tradicionalista, Marsalis criticou, em uma entrevista, os discos “moderninhos” do colega, que andava flertando com o funk e dance music nos anos 80. “Ele é um velho querendo parecer jovem”, fulminou. Miles deu o troco no mesmo tom: “Wynton é um jovem querendo parecer velho”.
  • MilitânciaEle tomou parte ativa na luta contra o apartheid na África do Sul, nos anos 80. Participou dos “Artistas Unidos Contra o Apartheid” que se recusavam a tocar no país. Gravou no histórico álbum “Sun City”, lançado pelo movimento em 85, ao lado de Bob Dylan, Keith Richards, Bono, Peter Gabriel, Bruce Springsteen, Pete Townshend, Lou Reed e muitos outros. E seu disco “Tutu”, de 86, era uma homenagem ao bispo Desmond Tutu, ícone da resistência ao apartheid.
  • Rock starMesmo depois da morte, Miles continua gerando polêmica. Em 2006, seu nome entrou para o Rock and Roll Hall of Fame. A decisão desagradou a roqueiros e jazzófilos.

Sites relacionados

 

  • www.milesdavis.com – o site oficial tem informações atualizadas sobre eventos e lançamentos de CDs, além de biografia, discografia e fórum. A seção de downloads ainda não está pronta.
  • www.geocities.com/Heartland/Valley/2822/miles_davis.html#1 – o site, mantido por um músico, tem análises críticas e extensas de todas suas fases, baseadas nos discos de cada período. Um trabalho de fôlego e conteúdo, para compreender a obra de Miles.
  • www.jazztrumpetsolos.com – tem uma boa biografia, discografia razoável e, para quem é músico, solos de algumas de suas músicas.

A matéria acima foi publicada na Folha. Acesse aqui, leia o original e compre a coleção, é imperdível.

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