Uma voz inigualável

Publicado: 11/10/2007 em Billie Holiday, Cantoras de Jazz, Folha de São Paulo, Jazz

HELTON RIBEIRO
Colaboração para Folha Online

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Não houve outra cantora como Billie. A amargura que impregnava suas interpretações não era pose nem estilo, mas o reflexo de uma existência realmente sofrida. E mais: ela tinha um timbre de voz inconfundível, um “timing” particular e grande apuro técnico, fazendo uso da voz como se fosse um instrumento. Por fim, deixou também um importante legado como compositora, com obras (geralmente em parcerias) que se tornaram standards, como “Fine and Mellow”, “The Man I Love”, “Don’t Explain” e “Lady Sings the Blues”.

Não é exagero dizer que a vida de Eleanora Fagan (seu nome verdadeiro) foi um inferno: estuprada na infância, explorada por maridos e empresários gananciosos, condenada por posse de drogas. Lady Day, como era chamada pelos amigos, só encontrava alívio na música.

Nascida em 7 de abril de 1915 em Baltimore (Maryland), começou a cantar em Nova York, em 29. Quatro anos depois fez sua primeira gravação, com Benny Goodman. De 35 a 42 Billie registrou seus maiores sucessos, acompanhada de dezenas de artistas de primeira linha, sendo os mais freqüentes o pianista Teddy Wilson e o saxofonista Lester Young.

No final dos anos 30 e ao longo da década seguinte, cantou em orquestras como as de Count Basie e Duke Ellington, ao mesmo tempo que começavam seus problemas com as drogas e, conseqüentemente, a polícia e a imprensa sensacionalista. Com a saúde e a voz debilitadas, ela continuou ativa nos anos 50, mas já sem o mesmo brilho. Em 17 de julho de 59, morreu de problemas cardíacos e do fígado, em Nova York.

Contexto histórico

A escravidão foi abolida no sul dos Estados Unidos em 1865. De início, isso não trouxe dias melhores para os negros, pelo contrário. Descontentes, muitos brancos criaram organizações criminosas como a Klu-Klux-Klan, iniciando um extermínio em massa. Enforcamentos eram quase diários em uma vasta região onde a população negra, na prática, não tinha proteção da lei.

“As árvores do sul sustentam estranhos frutos/ Sangue nas folhas e sangue nas raízes/ Corpos negros balançando na brisa”, dizia a música “Strange Fruit”, de Lewis Allen. Imortalizada na voz dolorida de Billie Holiday, a canção tornou-se um símbolo dessa era macabra e incentivou a luta pelos direitos civis.

Alguns afirmam que Billie não tinha intenção de adotar uma postura política, teria apenas se encantado com a melodia. Difícil acreditar nisso, afinal Lady Day foi marcada desde a infância pelo sofrimento e a discriminação.

Curiosidades

  • Filha precoceEm sua autobiografia, “Lady Sings the Blues”, Billie conta que os pais eram muito jovens quando se casaram: “Ele tinha 18 anos, ela, 16 e eu, 3”.
  • Lá, como aquiBillie atuou em apenas um filme, “New Orleans”, de 1946, e se arrependeu do papel. Quando foi contratada, pensou que apareceria na tela cantando. Ledo engano: “Mostrem-me uma garota negra no cinema que não faça papel de empregada ou de puta”, diria mais tarde. O dela foi de criada.
  • Dose letalEm um julgamento por porte de drogas, o juiz perguntou a um policial se a dose de heroína que ela costumava tomar era excessiva. A resposta foi que daria para matar qualquer um dos presentes no tribunal.
  • Muitos frutosBob Dylan contou há poucos anos que a música “Strange Fruit”, imortalizada por Billie, influenciou seu estilo musical. A canção foi regravada por vários astros pop, como Sting, e chegou às pistas de dança em um remix de Tricky.

Sites relacionados

  • www.cmgworldwide.com – o site oficial, mantido pelo espólio da cantora, tem biografia, citações, galeria de fotos, a relação por ordem alfabética de todas suas músicas e a cronologia dos fatos mais importantes de sua vida. A seção de notícias é inútil.
  • www.billie-holiday.net – o site da gravadora Legacy tem dezenas de samples para ouvir.
  • www.ladyday.net – o site tem discografia completa, artigos de revistas e curiosidades como investigações do FBI sobre seu consumo de drogas. A seção de áudio está fora do ar.

A matéria acima foi publicada na Folha. Acesse aqui, leia o original e compre a coleção, é imperdível.

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