Arquivo da categoria ‘Folha de São Paulo’

HELTON RIBEIRO
Colaboração para Folha Online

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No jazz há muitos artistas subestimados, e Lee Morgan é um deles. Um dos melhores trompetistas das décadas de 50 e 60 morreu muito jovem, aos 33 anos, o que o impediu de ganhar maior fama ao longo do tempo. Além da carreira solo, ele gravou com os maiores da época, como Dizzy Gillespie, John Coltrane, Art Blakey, Quincy Jones e Wayne Shorter. Entre os que ele influenciou estão Freddie Hubbard e Wynton Marsalis.

Edward Lee Morgan nasceu em 10 de julho de 1938, em Filadélfia, Pensilvânia. Aos 15 anos, já liderava o próprio grupo. De 56 a 58, tocou na big band de Dizzy Gillespie e, quando o líder a desfez, ele foi para os Jazz Messengers de Art Blakey, onde ficou até 61. Em 57, participou do disco “Blue Train”, de John Coltrane.

Problemas com heroína o levaram a um afastamento temporário até 63, quando ele voltou à cena em Nova York, gravando seu maior sucesso, o LP “The Sidewinder”, que chegou à parada pop. Retornou aos Messengers em 64, saindo definitivamente no ano seguinte, para iniciar carreira solo. Outros discos de sucesso foram “Search for the New Land”, de 64, e “Caramba!”, de 68. Morgan teve uma morte trágica. Em 19 de fevereiro de 72, aos 33 anos de idade, levou um tiro da própria mulher, Helen More, durante uma discussão dentro de um clube em Nova York.

Contexto histórico

Nos anos 60, o jazz havia praticamente desaparecido das rádios e tevês nos Estados Unidos, substituído pelo rock e a soul music. Nessa época, também, o movimento pelos direitos civis havia feito grandes progressos, mas a mídia parecia desconhecê-los: na televisão, por exemplo, era rara a presença de artistas e apresentadores negros.

Descontentes com essa situação, Lee Morgan e o saxofonista Roland Kirk, no começo dos anos 70, lideraram o Jazz and People’s Movement, que organizou protestos de impacto contra as redes nacionais de rádio e tevê.

A tática do movimento era simples. Vários músicos entravam incógnitos em programas de auditório gravados ao vivo, e de grande audiência, como os de Johnny Carson e Ed Sullivan. Em determinado momento, eles sacavam apitos e pequenos instrumentos de percussão que levavam escondidos na roupa e aprontavam um tremendo barulho, interrompendo os programas. Max Roach foi outro jazzista famoso que participou dos protestos.

Curiosidades

 

  • Alta produtividadeEm apenas 16 de carreira, ele gravou 25 discos em seu nome e dezenas de outros como “sideman” (acompanhante). Só com os Jazz Messengers de Art Blakey foram trinta, incluindo o maior clássico do grupo, “Moanin'”.
  • Na tevêA faixa-título do LP “The Sidewinder” fez tamanho sucesso que foi utilizada em um comercial de televisão da Chrysler em 65. O disco figurou entre os 25 mais vendidos na parada pop, numa época em que só Louis Armstrong conseguia competir com os Beatles e os Rolling Stones. Graças a suas expressivas vendas, a gravadora Blue Note, uma das mais importantes da história do jazz, escapou de ir à falência.
  • Morte no palcoHá várias versões para o motivo e as circunstâncias de sua morte. Uma delas é de que ele teria sido alvejado pela mulher em pleno palco do club Slug. Mais provável, no entanto, é que tenha sido do lado de fora do bar. A briga teria começado por ciúmes ou por causa de drogas.
  • VaidosoVárias composições do trompetista tinham seu nome no título. Algumas delas: “Morgan the Pirate”, “Most Like Lee”, “Ca-lee-so”, “Melancholee” e “Cunning Lee”.

Sites relacionados

 

  • www.shout.net/~jmh/ – o site mantido por um fã de hard bop tem uma boa biografia; detalhada discografia, incluindo os discos que gravou com outros artistas, e, para quem é músico, transcrições de solos
  • http://members.tripod.com/~hardbop – o site, também de um fã, tem textos sobre alguns de seus discos, como “The Cooker”, de 57, e “The Sidewinder”, de 63, além de biografia.
  • www.moo.pt/musica – o site português tem áudio de várias músicas e trechos de vídeos, além de toda a discografia, com a reprodução das capas dos álbuns.

A matéria acima foi publicada na Folha. Acesse aqui, leia o original e compre a coleção, é imperdível.

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HELTON RIBEIRO
Colaboração para Folha Online

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Um dos maiores compositores e contrabaixistas do jazz, Charles Mingus destacou-se também como bandleader. Seu Jazz Workshop era, mais que um grupo, um laboratório de idéias no qual os músicos improvisavam com grande liberdade sobre suas inovadoras criações, antecipando o free jazz. Ele fundia blues, gospel, música clássica e a influência de Duke Ellington para criar algo novo e instigante.

Mingus nasceu em 22 de abril de 1922 em Nogales, Arizona, e cedo se mudou com a família para Los Angeles, onde aprendeu a tocar trombone e violoncelo antes de optar pelo contrabaixo. De 41 a 53, tocou com Louis Armstrong, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Duke Ellington e outros grandes.

Em 54 fundou o Jazz Workshop, pelo qual passaram Max Roach, Lee Konitz e Jackie McLean. De 56 a 64, gravou os clássicos LPs “Pithecanthropus Erectus”, “The Black Saint and the Sinner Lady” e “Charles Mingus Presents Charles Mingus”, entre outros. Os arranjos podiam incluir ruídos e espaço para improvisações coletivas de grande força expressiva.

Depois de quatro anos afastado dos palcos e estúdios, voltou em 70 com muito sucesso. Um raro tipo de esclerose que atrofia os músculos deixou-o paralítico em 77 –mesmo sem tocar, ele continuou fazendo discos, nos quais atuava apenas como coordenador musical. A doença o derrotou em 5 de janeiro de 79, em Cuernavaca, México.

Contexto histórico

Até os anos 50, o músico de jazz, em geral, tinha pouco ou nenhum controle sobre sua obra, e uma visão de negócios que não ia muito além de gerir o próprio grupo. Empresários, gravadoras e editoras musicais pareciam falar um idioma incompreensível para os artistas. Por isso, eram frequentes os casos de músicos prejudicados em contratos com gravadoras, ou ludibriados por empresários.

Charles Mingus foi um dos primeiros a tentar superar essas limitações, aprendendo a trabalhar do outro lado do “balcão”. Criou selos independentes, organizou uma associação de músicos (Jazz Artists Guild) e financiou shows.

O empreendimento mais frutífero foi o selo Debut Records, aberto em sociedade com o baterista Max Roach, em 52. Durante seis anos, a pequena gravadora lançou discos de Miles Davis, Charlie Parker, Sonny Rollins, dos próprios donos e o famoso “Jazz at Massey Hall”, considerado o melhor disco ao vivo do jazz, com um grupo formado por Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Bud Powell, Mingus e Roach.

Curiosidades

 

  • Caro Miles…Em uma longa carta aberta a Miles Davis, escrita em 55, ele fazia duras críticas ao trompetista. Citando uma declaração de Miles de que não tinha gostado de quase nada do que gravou nos dois últimos anos (período em que Mingus participou de seus discos), ele fuzila: “Fico pensando como um verdadeiro artista pode aceitar ser pago por um trabalho que você mesmo diz não ter sido bem feito”.
  • Mingus viveApós sua morte, a viúva Sue Graham criou a Mingus Dinasty, depois aumentada para Mingus Big Band, especializada em executar o repertório do contrabaixista. Em 97 a orquestra veio ao Free Jazz, com participação do roqueiro Elvis Costello, que escreveu letras para algumas músicas do jazzista.
  • Bird mataria todosMuitas composições de Mingus tinham títulos estranhos ou bem-humorados. Uma delas era “If Charlie Parker Was a Gunslinger, There’d Be a Whole Lot of Dead Copycats.” (“Se Charlie Parker Fosse um Pistoleiro, Haveria um Punhado de Imitadores Mortos”). O título depois foi abreviado para “Gunslinging Bird” (“Pássaro Atirador”). Bird era o apelido de Parker.

Sites relacionados

 

  • www.mingusmingusmingus.com – o site oficial tem 44 samples de áudio, e trechos de filmes e comerciais de televisão utilizando músicas dele. Há sete textos do (ou com o) próprio Mingus sobre temas como “O que é um compositor de jazz” e uma carta aberta a Miles Davis, fazendo veladas críticas ao trompetista. A biografia é bem extensa e a discografia, bem detalhada, inclui até gravações piratas (bootlegs).
  • www.vervemusicgroup.como site da gravadora Verve tem extensas resenhas de seus discos lançados pelo selo Impulse, entre eles as obras-primas “The Black Saint and the Sinner Lady” e “Mingus Mingus Mingus Mingus Mingus”. Há também samples de músicas para ouvir.
  • www.jazzdisco.org – o site japonês tem um completa discografia, com as datas e locais das gravações e todos os músicos participantes. Inclui também os discos que ele gravou como acompanhante de outros artistas.

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HELTON RIBEIRO
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O guitarrista ganhou fama da noite para o dia ao ingressar no Return to Forever com apenas 19 anos. O trio com John McLaughlin e Paco de Lucia também tornou-se lendário. Ele foi um dos mais velozes guitarristas do jazz fusion, mas depois passou a se dedicar também à world music, alternando a guitarra com o violão, que toca com a mesma destreza.

Filho de italianos, Meola nasceu em Jersey City, Nova Jersey, em 22 de julho de 1954. Desde criança, já freqüentava clubes de salsa, até descobrir o jazz com Chick Corea e Larry Coryell.

Em 74, o próprio Corea o convidou a entrar para o Return to Forever. Os solos velozes e enérgicos de Meola atraíram o público roqueiro, proporcionando ao grupo suas melhores vendagens, em discos como “Where Have I Known You Before” e “Romantic Warrior”.

Dois anos depois, ele iniciou carreira solo com “Land of the Midnight Sun”. Este e os subsequentes “Elegant Gypsy”, “Casino” e “Splendido Hotel” já traziam elementos de world music. Em 80, Meola gravou com John McLaughlin e Paco de Lucia “Friday Night in San Francisco”, que vendeu mais de dois milhões de cópias.

A partir dos anos 90, ele gravou com mais freqüência world music acústica, como “World Sinfonia” e “Di Meola Plays Piazzolla”. Em 96, formou o trio The Rite of Strings, com o violinista Jean-Luc Ponty e o baixista Stanley Clarke (outro ex-Return to Forever). Seu novo CD, “Diabolic Inventions and Seduction for Solo Guitar, Volume I”, tem lançamento previsto para o fim de outubro de 2007.

Contexto histórico

No final dos anos 60, o jazz era um gênero comercialmente inviável. Desde o surgimento do bebop, na década de 40, ele vinha perdendo popularidade e se convertendo em música de intelectuais, quase um segredo compartido entre poucos. Ao contrário dos anos 30, quando o swing jazz era a música popular da América, o rock passou a dominar as paradas.

Transformando o adversário em aliado, o jazz-rock fusion trouxe uma nova onda de sucesso ao gênero. Iniciado por Miles Davis, o movimento atingiu o auge comercial nos anos 70, com bandas como Weather Report, Mahavishnu Orchestra e Return to Forever, que vendiam milhões de discos.

E foi Al Di Meola, com sua guitarra faiscante, um dos principais propulsores desse sucesso. Finalmente os fãs de rock viam um jazzista tocando com a intensidade e a velocidade de um Jimi Hendrix. Com ele, o Return to Forever atingiu suas maiores vendagens de discos, disputando com bandas de rock na parada pop americana.

Curiosidades

 

  • O mais premiado Quem é o maior guitarrista do mundo? Para a revista “Guitar Player”, certamente é Al Di Meola. Ele é o músico que coleciona mais prêmios concedidos pela “bíblia” das seis cordas.
  • Meola & MoreiraO percussionista brasileiro Airto Moreira fez parte da banda Al Di Meola Project, em meados dos anos 80. No CD “Cielo e Terra”, cinco das dez faixas são em dueto entre os dois. Em “Soaring through a Dream”, do mesmo ano, Airto compôs metade das músicas em parceria com o líder, entre elas a faixa-título e “Capoeira”.
  • Mais BrasilO guitarrista fez turnê pelo Brasil em 2001. Ele homenageia o país na faixa-título de “Cosmopolitan Life”, de 2006, cuja letra tem trechos em português falando do samba. Mas o ritmo da música é cubano.
  • Pop jazzO CD “Winter Nights”, de 99, tem músicas de Peter Gabriel (“Mercy Street”) e Paul Simon (“Scarborough Fair”), em versões acústicas. Além de violões, o disco apresenta um instrumento de 48 cordas chamado bandura (executado pelo ucraniano Roman Hrynkiv).

Sites relacionados

 

  • www.aldimeola.com – o site oficial tem trechos para ouvir de todas as músicas de seus dois últimos CDs, e comentários do próprio músico sobre eles. E também, claro, biografia, discografia completa, galeria de fotos, agenda de shows, fórum dos fãs e chat.
  • www.scaruffi.com – o site italiano tem uma extensa biografia, que inclui comentários críticos sobre cada um de seus discos.
  • www.moo.pt/musica – o site português tem toda a discografia, com a vantagem de reproduzir as capas dos álbuns. Tem também áudio de várias músicas e trechos de vídeos.

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HELTON RIBEIRO
Colaboração para Folha Online

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Ele foi o mais importante saxofonista surgido depois de Charlie Parker, desenvolvendo um novo modo de tocar que ampliou os horizontes do jazz. John Coltrane evoluiu do hard bop para o jazz modal e o free, incorporando estruturas da música indiana e imbuindo suas interpretações de forte carga emocional e mística. Suas “sheets of sounds” (sequências de notas tão rápidas e longas que davam a impressão “folhas” ou camadas de som) tornaram-se um desafio para os saxofonistas.

John William Coltrane nasceu em Hamlet, Carolina do Norte, em 23 de setembro de 1926. Tocou em grupos de rhythm & blues e depois com Dizzy Gillespie e Johnny Hodges. Atingiu a maturidade musical no lendário quinteto de Miles Davis nos anos 50, no qual permaneceu de 55 a 60, tendo participado do disco “Kind of Blue”, marco do jazz modal. Nesse período também fez uma histórica colaboração com Thelonious Monk e lançou, em 59, “Giant Steps”, sua primeira grande obra como líder, na qual já esboçava as “sheets of sounds”.

Ao deixar Miles, formou o clássico quarteto que incluía McCoy Tyner (piano) e Elvin Jones (bateria). Ainda em 60, lançou “My Favorite Things”, outra obra-prima. Suas experimentações atingiram a plenitude em “A Love Supreme”, de 64, onde ele mergulhou na música indiana e no espiritualismo. “Ascension”, de 65, marca sua adesão ao free jazz. Ele estava no auge da carreira quando, em 17 de julho de 67, morreu de infecção hepática em Huntington, Nova York.

Contexto histórico

Nos anos 30, o jazz era a melhor diversão, música para dançar. O bebop o intelectualizou, almejando convertê-lo em forma de arte. Coltrane levou-o a um novo patamar, adotando uma atitude espiritualista perante a música.

Ele “escreveu” seu próprio livro sagrado, o LP “A Love Supreme”, de 64, que dedicou a Deus. Os quatro temas do disco sucedem-se como uma oração sem palavras (com exceção da frase mântrica que dá nome a ele), capaz de comover o jazzófilo mais ateu.

Apesar de manifestar interesse pela cultura hindu, ele parecia não se vincular a uma religião específica. Sua crença era de que todas as pessoas deveriam se esforçar em prol de um mundo melhor, e que a música poderia ser um veículo para transmitir pensamentos positivos.

A “pregação” de Coltrane foi bem sucedida. Seus mais fiéis seguidores, o saxofonista Pharoah Sanders e a viúva Alice Coltrane, também adotaram uma postura devocional e positiva diante da música e da vida.

Curiosidades

 

  • Demorado

    Os longos solos de Coltrane, que podiam durar 20 minutos ou mais, tornaram-se lendários e geraram muita polêmica. O importante crítico Ira Gitler disse, na época, que os 16 minutos de “Chasin’ the Trane”, registrados em 61 no álbum “Live at the Village Vanguard” pareciam “a espera da passagem de um trem de carga de cem vagões”. Quando ele tocava no grupo de Miles Davis, o patrão exigiu que fizesse solos mais curtos, e Coltrane alegou que não conseguia, pois eles seguiam um encadeamento lógico. “É só tirar a p… do sax da boca!”, respondeu o irascível Miles.

  • Jazz militar

    Coltrane serviu na marinha entre 45 e 46, em uma base no Havaí. Sua primeira gravação foi feita com uma banda militar, em julho de 46.

  • Família musical

    Em seus dois últimos anos de vida, Coltrane foi casado com a pianista e harpista Alice Coltrane, que morreu em janeiro de 2007, deixando também uma obra de grande qualidade. Um dos filhos do casal, Ravi, é hoje um renomado saxofonista e já esteve algumas vezes no Brasil.

  • Homenagens

    Entre as muitas homenagens feitas a ele estão a do serviço postal americano, que estampou seu rosto em um selo, e a da companhia cinematográfica Universal, que deu o nome do saxofonista a uma rua de seus estúdios.

Sites relacionados

 

  • www.johncoltrane.com – o site oficial, mantido pela enteada do saxofonista, Michelle Coltrane-Carbonell, tem vídeos (inclusive dele com Miles Davis), biografia, discografia, galeria de fotos e informações sobre a Fundação John Coltrane e as bolsas de estudo oferecidas por ela.
  • www.midomi.com – o site (americano, apesar do nome) tem trechos de quase 500 músicas para ouvir e resenhas de todos seus discos.
  • www.nathanielturner.com – o site sobre cultura negra americana tem como maior atrativo as resenhas críticas de alguns dos discos de Coltrane, como “Expression” e “The Complete Africa/Brass Sessions”. A biografia também é muito boa.

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HELTON RIBEIRO
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Ele e Charlie Parker foram os “pais” do bebop, mais influente estilo de jazz dos últimos 60 anos. Dizzy Gillespie foi também um dos melhores trompetistas do gênero e pioneiro do chamado “latin jazz”.

De família pobre, John Birks Gillespie nasceu em 21 de outubro de 1917 em Cheraw, Carolina do Sul. Aprendeu trompete aos 15 anos, e aos 20 tocava em big bands na Filadélfia. No início dos anos 40, já em Nova York, acompanhou Duke Ellington e Ella Fitzgerald, e começou a escrever clássicos como “Night in Tunisia” e “Woody’n’You”. Na orquestra de Earl Hines, em 43, conheceu Charlie Parker.

Após os shows das big bands em que tocavam, ele e Parker se reuniam em pequenos bares para longas jam sessions (improvisos) com outros jovens músicos. Nessas noitadas desenvolveu-se o bebop, que os rapazes começariam a gravar a partir de 45: “Hot House”, “Groovin’ High”, “Salt Peanuts” e outros clássicos.

No ano seguinte, Gillespie formou uma big bang, explorando ritmos cubanos em “Manteca” e “Cubana Be/Cubana Bop”. Pela orquestra e subsequentes grupos menores passaram John Coltrane, Sonny Rollins, Stan Getz e outros que viriam a ser também mestres do jazz.

Até os anos 70 ele alternou big bands e pequenos grupos, e participou do “supergrupo” Giants of Jazz, com Thelonious Monk, Art Blakey e outros. Seu último projeto foi a United Nation Orchestra, que reunia músicos de vários países, entre eles os brasileiros Cláudio Roditi e Flora Purim. Ele deixou de tocar em 92, e morreu em 6 de janeiro do ano seguinte, em Englewood, Nova Jersey, de câncer no pâncreas.

Contexto histórico

Até os anos 40, e principalmente durante a Era do Swing, o jazz era visto apenas como diversão, uma música alegre e descompromissada, feita para dançar. Os boppers almejavam mais que isso, queriam fazer do jazz uma forma de arte.

Os instrumentistas se empenhavam em expandir e tornar mais complexa a linguagem do gênero. Desenvolveram novas progressões harmônicas, dissonâncias, fraseados longos e tão rápidos que desafiavam a habilidade técnica dos executantes.

Ao explicar os avanços do bebop, o crítico Leonard Feather fez uma interessante analogia com a linguagem: “É como se alguém com um vocabulário de apenas algumas centenas de palavras e que só formulasse frases curtas adquirisse a faculdade de empregar milhares de palavras e de articulá-las em frases mais longas e complexas”.

Coerentes com essa visão mais acadêmica do jazz, quase como uma ciência a ser pesquisada e desenvolvida, os músicos faziam questão de exibir um ar intelectual. Dizzy Gillespie vestia-se bem e usava óculos de aros redondos que lhe davam a aparência de um professor.

Curiosidades

 

  • Brincalhão

    O apelido Dizzy (tonto) se deve a seu jeito brincalhão. Ele teria sido dado por um músico da Filadélfia, devido às excentricidades de Gillespie no palco, como usar um trompete entortado para cima.

  • Onomatopéia

    A palavra “bebop” é uma onomatopéia que simula duas notas dissonantes tocadas em alta velocidade, um recurso bastante comum nesse estilo jazzístico. Um bom exemplo pode ser ouvido em “Groovin’ High”, de Gillespie.

  • “Embaixador” do jazz

    Gillespie foi o primeiro músico de jazz a fazer turnês internacionais patrocinadas pelo governo americano. De 56 a 58, ele liderou uma big band que excursionou por meio mundo: Oriente Médio, América do Sul (inclusive o Brasil), Europa e Ásia. Políticos conservadores protestaram contra o uso de dinheiro público para promover o jazz.

  • Dando duro

    Talvez ele pudesse entrar para o Guinness (Livro dos Recordes). Só em 89, fez 300 shows em 27 países; tocou em cem cidades de 31 Estados americanos e gravou quatro LPs.

  • Blues do Recife

    A United Nation Orchestra tocava ritmos de vários países, principalmente latino-americanos, como salsa, tango, bolero e samba. Uma das músicas gravadas pelo grupo chama-se “Recife’s Blues”, composta pelo trompetista brasileiro Cláudio Roditi.

Sites relacionados

 

  • www.scaruffi.com – o site italiano traz um bom histórico do surgimento do bebop (com destaque para Gillespie) e uma detalhadíssima discografia do trompetista, que inclui os músicos que gravaram em cada faixa.
  • www.vervemusicgroup.com – O site da gravadora traz uma pequena biografia e comentários sobre os discos lançados por ela, como os clássicos “At Newport” e “Bird and Diz”.
  • www.allmusic.com – O site tem uma acurada biografia, comentários sobre alguns discos (como “At Newport” e “Dizzy’s Big 4”), trechos de suas faixas para ouvir e um vídeo de “Salt Peanuts”.

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HELTON RIBEIRO
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O free foi a revolução mais radical ocorrida até hoje no jazz. Cinqüenta anos depois, ainda há críticos que confessam não conseguir gostar desse estilo, e grande parte dos jazzófilos acha que tudo que ele produziu não passa de barulho e confusão. A “culpa” é de Ornette Coleman, o saxofonista que libertou o jazz de sua estrutura convencional.

Ele nasceu em 9 de março de 1930 em Fort Worth, Texas, e começou a tocar sax alto aos 14 anos. Na década de 50, formou em Los Angeles um grupo com o trompetista Don Cherry e o baterista Billy Higgins.

Em 59, os três foram para Nova York, onde formaram um clássico quarteto com Charlie Haden no contrabaixo. O grupo lançou no mesmo ano “The Shape of Jazz to Come”, com sua obra-prima “Lonely Woman”. No ano seguinte, foi agregado o quarteto de Eric Dolphy (com Freddie Hubbard, Scott LaFaro e Ed Blackwell) para a gravação do manifesto do movimento, “Free Jazz”. Nele, os dois quartetos tocavam simultaneamente. Os músicos improvisavam não com base na estrutura harmônica dos temas, mas de forma livre, e todos ao mesmo tempo.

Em 69, ele formou outro grupo com Haden, Blackwell, o saxofonista tenor Dewey Redman e seu filho Denardo Coleman. Durante alguns anos, pesquisou e gravou música indiana, africana e árabe. Em 75, formou a banda elétrica Prime Time, com duas guitarras, dois baixos e duas baterias. Começou a chamar atenção do público roqueiro, o que se consolidou com o LP “Song X”, gravado com Pat Metheny em 85.

Nos anos 80 e 90, ele escreveu, tocou e gravou peças sinfônicas. Nos últimos anos, vem produzindo menos. O CD mais recente, “Sound Grammar”, de 2006, traz um quarteto de formação atípica: sax, percussão e dois contrabaixos.

Contexto histórico

A maneira de se tocar jazz, por mais de 50 anos, obedeceu a normas que sucessivas vertentes como o swing, o bebop e o cool não questionaram. A música transcorria de maneira lógica, com a exposição do tema (melodia) pelo grupo; a improvisação (solos) com base nos acordes da melodia, e o retorno ao tema. Todas as inovações se deram dentro desses parâmetros.

O free jazz, capitaneado por Ornette Coleman (e que teve outros nomes de destaque como John Coltrane, Cecil Taylor, Eric Dolphy, Art Ensemble of Chicago e vários seguidores de Coltrane), veio romper com essas amarras. Os músicos passaram a improvisar livremente, sem necessariamente se ater à melodia. Mais ainda, cada um podia seguir suas próprias idéias, dialogando com os colegas, em vez de obedecer a uma estrutura pré-determinada.

Assim, foi quebrada a hierarquia segundo a qual instrumentos como contrabaixo e bateria deveriam manter o ritmo enquanto sax e trompete, por exemplo, faziam os solos. A improvisação coletiva chegou ao ápice nos “duplos quartetos” que tocavam ao mesmo tempo, cada um de forma diferente.

Curiosidades

 

  • Toy jazzNo seu quarteto clássico dos anos 50, Coleman usava um sax de plástico e Don Cherry, um trompete de bolso. A maioria dos colegas não os levava a sério, achando que eles eram apenas farsantes usando instrumentos de brinquedo.
  • Polivalente Coleman fez gravações tocando também violino (em “Song X”, de 85), trompete (“Science Fiction”, de 71) e sax tenor (“Onette on Tenor”, de 62).
  • Para ouvir numa ilha desertaUm fã insuspeito de Coleman é Wynton Marsalis, notório tradicionalista. Ele disse em uma entrevista que o revolucionário [ou inovador] “Shape of Jazz to Come” é um dos poucos discos que levaria para uma ilha deserta.
  • HarmolódicaEle cunhou o termo “harmolódica” (ao pé da letra, algo como “harmonia melódica”) para definir sua música. Trocando em miúdos, é a improvisação coletiva, onde todos os músicos — inclusive da seção rítmica — têm o mesmo destaque, por se tornarem também solistas em tempo integral.

Sites relacionados

  • www.ornettecoleman.com – o site oficial tem vídeos, áudio de uma entrevista, discografia com as fichas técnicas, agenda de shows e uma lista de livros e DVDs sobre ele.
  • www.geocities.com/BourbonStreet/Quarter/7055/ – o site alemão Robert’s Jazz Corner tem como principal atrativo uma seção com artigos e entrevistas em jornais e revistas como Down Beat e USA Today. Há também biografia e discografia. A seção de críticas de CDs é toda em alemão, sem tradução para o inglês.
  • www.ejn.it – o site da Europe Jazz Network tem uma boa biografia, e também as de músicos que tocaram com ele, como Don Cherry e Dewey Redman. O site exige inscrição, mas o internauta pode evitar a burocracia indo direto a http://www.ejn.it/mus/coleman.htm.
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HELTON RIBEIRO
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Corea ainda é mais lembrado pelo jazz fusion ao lado de Miles Davis e à frente de seu Return to Forever. Mas o estilo romântico e influenciado pela música clássica e étnica faz dele também um dos mais completos pianistas contemporâneos.

Filho de italianos, Armando Anthony Corea nasceu em 12 de junho de 1941 em Chelsea, Massachusetts. Depois de acompanhar Dizzy Gillespie e Sarah Vaughan, entrou para a banda de Miles Davis em 68. Participou com ele da revolução do jazz fusion, gravando discos como “In a Silent Way” e “Bitches Brew”.

Após deixar Miles, ele formou em 71 um dos mais populares grupos do fusion, o Return To Forever, pelo qual passaram, entre outros, Stanley Clarke, Al Di Meola e os brasileiros Airto Moreira e Flora Purim. “Romantic Warrior” e “Where Have I Known You Before” foram alguns LPs que fizeram grande sucesso.

Em 78, ele e Herbie Hancock formaram um duo de pianos muito aclamado. O retorno à música acústica culminou em outro duo, com o pianista clássico Friedrich Gulda, em “The Meeting”, de 82. Em 85, Corea voltou ao fusion com a Elektric Band, da qual derivou mais tarde a Akoustic Band, com John Pattitucci e Dave Weckl.

Esse ecletismo tem pautado seus últimos trabalhos. De 2000 até agora ele já lançou CDs de música clássica (“Corea Concerto”), étnica (“The Ultimate Adventure”), jazz acústico (com o New Trio) e tudo isso junto em seu novo CD, “The Enchantment”, com o banjoísta Béla Fleck.

 

 

 

Contexto histórico

Nos anos 50, o rock n’roll transformou o jazz em “coisa de velho”. Vinte anos depois, músicos inquietos, tendo Miles Davis à frente, levaram os roqueiros para o jazz. Gostar de jazz passou a ser bacana, sinal de refinamento, numa época em que o próprio rock almejava ser levado a sério, encarado como forma de arte, não mero produto da indústria cultural.

Corea estava na linha de frente dessa nova geração que eletrificou o jazz. Além dos discos gravados com Miles, e que definiram o estilo, seu Return to Forever emplacou seis LPs na parada pop dos Estados Unidos.

O fusion gerou uma ruptura também do outro lado, o do rock, influenciando o surgimento do progressivo. Artistas e bandas como Frank Zappa, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer e Yes tinham uma forte orientação jazzística. Ao longo dos anos 70, outros músicos como Jeff Beck e Carlos Santana também aderiram ao fusion.

 

 

Curiosidades

 

  • Encanto brasileiroSeu novo CD, “The Enchantment”, em dueto com o banjoísta Béla Fleck (que esteve no Brasil em março), é um caleidoscópio musical. Tem “Brazil” (com citação de “Aquarela do Brasil”), tango (“Senorita”), bluegrass (“Mountain”), música infantil (“Children’s Song Nº 6), valsa (“Waltse for Abby”), e uma música que parece choro (“Spectacle”).
  • Em famíliaDepois do casal Airto Moreira e Flora Purim, outra formação do Return to Forever tinha a cantora Gayle Moran (ex-Mahavishnu Orchestra), que se tornaria a senhora Corea.
  • Chaka Khan & Chick CoreaCorea tocando disco music? Não exatamente. Quando a estrela do gênero Chaka Khan resolveu gravar um LP de jazz, em 82, montou para acompanhá-la um grupo “all stars” com ele, Freddie Hubbard, Joe Henderson, Stanley Clarke e outros.
  • Infantil, mas nem tantoEm 83, ele gravou um disco teoricamente para crianças, “Children’s Songs”. Na verdade, são belos solos de piano (com exceção de uma faixa, com violino e violoncelo) que podem fazer a alegria de qualquer adulto. As músicas são intituladas simplesmente “Nº 1”, “Nº 2” e assim por diante.

Sites relacionados

 

  • www.chickcorea.com – o site oficial tem vídeos e disponibiliza para download uma gravação inédita do pianista com o vibrafonista Gary Burton. E, claro, tem biografia, discografia, galeria de fotos e agenda de shows, além de links para sites de artistas que tocam com ele.
  • www.allmusic.com – um dos mais completos sites de biografias de músicos, tem também samples de 37 músicas para ouvir e resenhas de cinco CDs.
  • www.progarchives.com – para quem quer conhecer mais sobre o Return to Forever, o site de rock progressivo tem um bom histórico do grupo e sua discografia.

A matéria acima foi publicada na Folha. Acesse aqui, leia o original e compre a coleção, é imperdível.