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HELTON RIBEIRO
Colaboração para Folha Online

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Ele é, ao lado de Duke Ellington, o maior nome da história do jazz. Entre outros predicados, Louis Armstrong foi o artista mais popular e um dos melhores trompetistas do gênero. Inovações como o solo individual e o scat (canto sem palavras) são atribuídas a ele.

Satchmo ou Pops, como era carinhosamente chamado, nasceu em 4 de julho de 1901, em New Orleans (ele dizia ter sido em 1900, mas sua certidão de nascimento registra o ano seguinte). Ele teve uma infância muito pobre e problemática. Foi criado pela mãe e a avó, pois o pai abandonou a família.

Aos 11 anos, foi levado para um reformatório por ter disparado uma pistola. Mas o castigo trouxe sua redenção, pois no reformatório ele aprendeu a tocar corneta (que mais tarde trocaria pelo trompete). Com 19 anos, substituiu o então “rei da corneta”, King Oliver, na banda do trombonista Kid Ory. De 1922 a 24, tocou e gravou com Oliver e Fletcher Henderson, em Chicago.

De 25 a 28, já como líder, fez os clássicos registros com os Hot Five e Hot Seven, que incluíam Kid Ory, Johnny Dodds e Lil Hardin, sua mulher na época. “Potato Head Blues”, “Muskrat Ramble”, “West End Blues” e muitos outros imortais standards do jazz surgiram nesses três anos. Em 29, Satchmo mudou-se para Nova York e ganhou reconhecimento mundial tocando em grandes orquestras. Nas décadas de 40 e 50, voltou a reunir um grupo pequeno, os All Stars, para outras lendárias gravações.

À medida em que foi adotando um repertório mais comercial e dando mais destaque à voz, Armstrong passou a competir com os astros pop nas paradas, chegando a desbancar os Beatles com o LP “Hello Dolly”, de 64. Outra canção de grande apelo popular foi “What a Wonderful World”. Coroado de sucesso, ele morreu de ataque cardíaco em 6 de julho de 71, em Nova York.

  • Be-Bop-a-LulaNa gravação de “Heebie Jeebies”, um de seus primeiros sucessos, ele esqueceu a letra e começou a cantarolar. Inventou, assim, o “scat singing”, um canto em que fonemas aleatórios substituem palavras. O scat entrou para o vocabulário jazzístico e influenciou até o rock’n’roll, em canções como “Be-Bop-a-Lula” e “Tutti Frutti”.
  • Marca registradaSua voz grave e roufenha é inconfundível e influenciou gerações de músicos de variados círculos, desde Billie Holiday até o roqueiro Tom Waits. O timbre de Armstrong, tecnicamente falando, é baixo, algo não muito comum entre cantores de sucesso, que em geral são tenores ou barítonos.
  • Que bocão!O apelido Satchmo é uma abreviação de Satchelmouth (boca de saco), uma referência nada elogiosa aos sorrisos largos de Armstrong. Deve-se lembrar que aqueles eram tempos de discriminação racial.
  • A rixa com Dizzy GillespieNos primeiros anos do bebop, um de seus criadores, o trompetista Dizzy Gillespie, deu uma polêmica entrevista dizendo que o bop era o futuro do jazz, e que Louis Armstrong representava o passado. Satchmo deu o troco, ironizando Gillespie em uma música gravada para um especial de televisão. Mais tarde eles fizeram as pazes e chegaram a tocar juntos.

A vida não era nada fácil para os negros americanos no início do século 20, quando nasceu Louis Armstrong. Organizações secretas como a Klu-Klux-Klan faziam dos linchamentos um método de ação.

Negros não podiam freqüentar os mesmos lugares que os brancos, e, em alguns Estados, até o direito ao voto lhes foi subtraído. Por tudo isso, o historiador John Hope Franklin considerou que a vida dos negros do sul, no início do século 20, era pior que nos tempos da escravidão.

Durante o movimento pelos direitos civis, nos anos 50 e 60, dezenas de músicos como Quincy Jones, Ray Charles e James Brown apoiaram a causa. Essa era também a época da Guerra Fria, e a Casa Branca tirava proveito do prestígio de Armstrong patrocinando turnês propagandísticas pelo mundo, nas quais ele era apresentado como “embaixador da boa vontade” (americana).

Até que ele viu, na televisão, crianças negras sendo agredidas pela polícia. Revoltado, cancelou a turnê seguinte (para a União Soviética) e deu um “conselho” ao governo: “Vá para o inferno!”.

Sites Relacionados

  • www.satchmo.net – o site oficial, mantido pelo Queens College, tem uma seção de notícias bastante atualizada, informações sobre os museus dedicados a ele e eventos em sua homenagem, fóruns de discussão e biografia.
  • www.pbs.org – site da rede de televisão PBS reproduz a biografia feita pela Grove, uma das melhores enciclopédias de jazz. Tem músicas e comentários de Wynton Marsalis e do próprio Louis para ouvir.
  • www.michaelminn.net – o site, criado pelo músico Scott Johnson, tem a completa discografia do trompetista, incluindo todas as bandas em que tocou. São centenas de títulos, com datas e locais de gravação e músicos participantes.

A matéria acima foi publicada na Folha. Acesse aqui, leia o original e compre a coleção, é imperdível.

Louis Armstrong – Dixie music man

Louis Armstrong

Publicado: 28/04/2007 em Jazz, Louis Armstrong

Louis ArmstrongLouis Armstrong (Nova Orleans, 4 de agosto de 1901 — Nova Iorque, 6 de julho de 1971), (também conhecido pelos apelidos de Satchmo e Pops) é considerado “a personificação do jazz”[1]. Com sua voz e sua personalidade indiscutivelmente inconfundíveis e até hoje conhecidas até por aqueles que não são aficcionados por jazz, Louis Armstrong é um dos maiores expoentes do Jazz tanto como cantor quanto por pirmeiro grande solista, com seu trompete.

Infância e Juventude

Trompetista, cornetista e cantor de jazz natural dos Estados Unidos da América, Louis Armstrong é natural de Storyville, distrito de New Orleans conhecido por sua diversidade de ambientes. De prostíbulos a igrejas, passando por estabelecimentos diversos, Louis Armstrong conviveu nesse ambiente com a enorme pobreza em que nasceu e passou sua infância.

Tão logo Louis nasceu, seu pai abandonou sua família. Conciliando a liberdade das ruas e o trabalho para o sustento da família, o pequeno Louis desenvolvia-se e tornava-se uma criança extremamente esperta e adaptada à vida árdua. Tão logo conseguiu comprar uma corneta, sozinho começou a aprender a tocá-la. Além do sopro, cantava com um grupo pelas ruas e avenidas por alguns trocados.

Os motivos que o levaram a um reformatório enquanto jovem são nebulosos. Algumas biografias citam que o motivo foi uma confusão na rua[2]. Já outras que o motivo foi Louis atirar algumas vezes para cima com um revólver em uma comemoração, um policial ver a cena e encaminhá-lo a um reformatório, onde passaria um ano e meio de sua jovem vida[3]. Porém, contrariando todas as prerrogativas, foi justamente essa temporada no reformatório que o fez ter um contato intensivo com a música, estudando com mais afinco bugle e corneta na banda do reformatório, banda que depois viria a liderar. No mesmo local começou a aprender harmonia.

Já livre, fez diversos pequenos trabalhos para se sustentar, aproveitando cada oportunidade para conseguir emprestado uma corneta e tocar onde fosse possível dentre as inúmeras bandas que fervilhavam por New Orleans – uma música que, no entanto, ainda não caracterizava o jazz.

Armstrong se casou, ao todo, quatro vezes. A primeira delas aos 17 anos com uma prostituta de Louisiana. Mas a sua quarta esposa, Lucille, foi a mulher de sua vida.

A musicalidade inata e evidente de Armstrong, aliada à disciplina técnica que adquirira na banda do reformatório, capacitaram-no a tocar num estilo próprio, intrínseco e virtuosístico que se mostrava opção latente ao estilo reinante em New Orleans naquela época. Por volta de 1917, Joe “King” Oliver, ao perceber o enorme talento do jovem, acolheu Armstrong sob sua proteção, recomendou Armstrong para substituí-lo na banda de Kid Ory quando foi para Chicago em 1918. Louis tocou com a banda de Fate Marable entre 1919 e 1921, porém voltou em 1922 para Chicago a fim de se juntar novamente a Oliver. Em 1924, casa-se com Lillian Hardin, pianista do conjunto de Oliver (segunda de suas quatro esposas). Por incentivo de sua recém-esposa, Louis acaba por deixar Oliver e entrar para a orquestra de Fletcher Henderson em Nova Iorque, onde ficou por pouco mais de um ano.

Trejetória do sucesso

A estréia de Armstrong como um líder se deu em 12 de novembro de 1925 com a criação do grupo Hot Five. Nos anos que se seguiram, Armstrong gravaria muito: junto aos Hot Five de 1925-1926, Hot Seven de 1927 e os Hot Five novamente de 1928 – os mais aclamados (esses com seis integrantes), com Earl Hines ao piano. Essa série de gravações é um marco histórico, ocupando um lugar central na história do jazz. Nelas, a genialidade de Armstrong se revela em sua plenitude. Durante esse período, Armstrong trabalha também com inúmeras orquestras. É nessa época que Louis definitivamente troca a corneta pelo trompete.

A partir de 1929, Armstrong deixa de lado os conjuntos pequenos para passar dezenove anos trabalhando apenas à frente de grandes orquestras, sempre como estrela e solista absoluto. Em 1932 e 1933 estréia em turnês pela Europa. Em 1938, Louis e Lilian (2ª esposa) se divorciam e ele se casa com Alpha Smith (3ª esposa). Em 1942, casa-se com Lucille Wilson, a qual viria a ser a mulher da sua vida até a morte. Nos anos 40, influenciado com o declínio do swing no pós-guerra, a música de Armstrong passa a começar a ser considerada pelo público como um tanto fora de moda e antiquada.

Em 1948, genialmente forma o Louis Armstrong and His All Stars, um sexteto apenas com grandes músicos, naqueles moldes do seu segundo Hot Five, agora com a participação do ex-clarinetista de Duke Ellington, Barney Bigard, o notável trombonista Jack Teagarden, o baixista Arvel Shaw, o grande baterista Sid Catlett, e o mestre Earl Hines ao piano. Esse conjunto se revela o contexto-base ideal para o desenvolvimento da essência da arte de Armstrong. Com o sexteto, Armstrong viaja em turnê por todo o mundo. Entretanto, ao passar o tempo, sucessivas mudanças ocorreram nos músicos dos All Stars, o padrão musical caiu sensivelmente, e a música se tornou mais previsível. Nas décadas de 50 e 60, Armstrong sobressai-se e torna-se uma celebridade sem paralelo no mundo da música popular, graças não só às suas muitas turnês e gravações, mas também às suas participações em filmes.

A figura mitológica de Louis

É difícil caracterizar um só motivo para toda a fama de Armstrong, de proporções praticamente mitológicas, plenamente merecidas. Ele praticamente caracterizou uma nova forma de fazer jazz, tornando-se seu primeiro grande virtuose. Como instrumentista, Armstrong expandiu os limites de seu instrumento ao ampliar a extensão do trompete até notas consideradas inacessíveis aos executantes anteriores, de tão agudas. Seu som é límpido, quente e penetrante, aliado a um [[vibrato]] absolutamente regular nos finais de frases, como poucos na história do jazz. Seu fraseado é admiravelmente focalizado e, acima de tudo, inventivo: Armstrong inicia e termina suas frases em pontos que nunca são previsíveis. Ao improvisar, parece não possuir limites. A maioria dos trompetistas que vieram depois de Armstrong o tem como ídolo e ícone de seu instrumento.

Com o passar dos anos, Louis começou a cantar cada vez mais. Foi especialmente com essa imagem que Louis ficou gravado no inconsciente coletivo. Com diversos hits gravados, incluindo “Stardust”, “What a Wonderful World”, “When The Saints Go Marching In”, “Dream a Little Dream of Me”, “Ain’t Misbehavin'”, “Stompin’ at the Savoy”, “We Have All the Time in the World” (da trilha de James Bond), é inegável o também sucesso como cantor de Louis Armstrong. Porém, dentre todas as composições, “What a Wonderful World” é talvez a que mais emocione, tanto pela belíssima letra, quanto pela interpretação única e magnífica de Louis. Seu timbre rouco e grave com certeza seria considerado impróprio para qualquer outro gênero musical. A entonação e o modo como Armstrong construía suas frases musicais aliando um timing perfeito, sensibilidade para cada nota e seu poder de organização dentro da divisão quebrada característica do jazz são fatos marcantes.

Louis Armstrong é exemplo de personalidade que alcançou grande êxito tanto em sua área de atuação, no caso sua música, quanto como ser-humano.

Louis Armostrong em uma rara versão colorida.